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Porto Alegre, segunda-feira, 08 de outubro de 2018.
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Jornal do Comércio

Economia

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Conjuntura

Edição impressa de 08/10/2018. Alterada em 08/10 às 01h00min

País pode crescer se iniciar ajustes no 1º semestre

Próximo presidente terá que colocar em prática cortes de gastos para amenizar rombo nas contas públicas

Próximo presidente terá que colocar em prática cortes de gastos para amenizar rombo nas contas públicas


VALTER CAMPANATO/Valter Campanato/Agência Brasi/JC
Com juro e inflação baixos, mão de obra disponível e capacidade ociosa, há chance de que o Brasil cresça além de seu potencial médio - de cerca de 2% ao ano - a partir de 2019. Mas, para a recuperação não ficar de novo na intenção, economistas dizem que o novo ocupante do Palácio do Planalto tem uma tarefa urgente: definir a solução para o déficit fiscal já no primeiro semestre.
Endereçar medidas de corte de gastos que amenizem o rombo nas contas públicas - o que deve passar pela reforma da Previdência - é a única forma de tirar o setor produtivo do atual estado de torpor. "Todo mundo concorda que a agenda de reformas na área fiscal é essencial e daria ao País espaço para crescer", diz Mario Mesquita, economista-chefe do Itaú Unibanco. Parece simples, mas não é: as condições para a recuperação estão dadas desde 2017, mas tirar do papel a ideia de controle de gastos tem sido o desafio. Neste ano, as previsões para a expansão do PIB chegaram a 3%, mas agora estão em pouco mais de 1%.
A chance de usar o pós-crise como alavanca de crescimento exige uma política econômica clara, diz Samuel Pessôa, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV). Ele vê a questão fiscal como prioridade zero. E, como a solução terá de passar por uma costura política habilidosa do novo presidente, ele recomenda que o trabalho comece a ser feito ainda em 2018, para que o País ganhe tempo precioso em 2019. "A verdade é que, nos últimos dois anos, os políticos resolveram fazer greve", diz Pessôa. "O Congresso quer se abster de arbitrar o conflito de distribuir riquezas e fazer o Estado brasileiro caber dentro da própria capacidade."
Ainda que o rombo do setor público não supere os R$ 120 bilhões neste ano - abaixo da "meta negativa" de até R$ 163 bilhões -, o Planalto precisará dar um recado claro sobre a capacidade de pagar sua dívida antes de agosto do ano que vem, quando o Orçamento de 2020 deve seguir ao Congresso. "O primeiro semestre será decisivo para o Brasil", avalia Simão Silber, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA USP).
É só a partir da solução de problemas estruturais que o País poderá ir além da recuperação do que a economia perdeu durante a recessão, afirma o economista Marcos Lisboa, presidente do Insper. "Hoje, o cenário de crescimento é, na realidade, a recuperação do que perdemos. A chance de ampliarmos o crescimento sustentável, ao longo de vários anos, é muito baixa."
Para Pessôa, é preciso também alocar melhor os investimentos. "Muitas das escolhas que o Brasil fez recentemente não geraram a capacidade produtiva imaginada", ressalta. Entre os exemplos recentes de desperdício de recursos citados pelos economistas estão incentivos direcionados a setores específicos - como o de veículos -, estaleiros que hoje estão quase parados e refinarias construídas a preços exorbitantes.
Do lado dos investidores, o cenário indefinido, fruto das dúvidas sobre o direcionamento fiscal do País, adia ou inviabiliza que negócios engatilhados há tempos sejam concretizados. O empresário Junior Durski, fundador da rede de hamburguerias Madero, está em busca de um sócio, mas diz que os fundos de private equity - que compram participações em empresas - estão receosos em fazer grandes apostas neste momento. "Enquanto o cenário não fica mais claro, as propostas têm sido muito baixas, pois os fundos estão conservadores", conta Durski.
Presidente da fabricante de celulose Suzano, que está próxima de concretizar uma fusão bilionária com a rival Fibria, Walter Schalka diz que o Brasil precisa vencer as próprias amarras de produtividade - mexendo nas questões fiscal, previdenciária e tributária - para evitar que o País fique ainda mais atrasado em relação ao resto do mundo à medida que a economia global se digitaliza. "Para que essas mudanças aconteçam é preciso que o Congresso seja bem eleito e que tenha viés reformista", diz.
 

Nem toda a capacidade poderá ser recuperada, avaliam analistas

Correr atrás do prejuízo após uma recessão que consumiu 8% das riquezas produzidas pelo País exige pressa não só do ponto de vista macroeconômico, com o ajuste fiscal, mas também para que ativos reunidos pela economia até 2014 ainda possam ser aproveitados. De acordo com economistas, do lado da capacidade ociosa da indústria, a retomada da operação dos equipamentos pode ser dificultada pelo fechamento das empresas às quais eles pertenciam. Já o desemprego prolongado pode gerar um desafio de treinamento de mão de obra.

Enquanto parte dos equipamentos está à espera de novos pedidos em companhias ainda em funcionamento, a mortalidade de empresas no País foi alta na recessão: só em 2016, 70 mil negócios fecharam as portas, lembra Simão Silber, professor da USP. Dessa forma, uma parcela dos ativos que estava em operação não poderá ser usada caso a retomada se concretize nos próximos anos.

O mesmo raciocínio não se aplica à mão de obra. O desemprego está em 12,1%, e, entre pessoas sem trabalho e exercendo atividades precárias, o total de trabalhadores disponíveis supera 27 milhões de pessoas. É um contingente que, assim que as oportunidades surgirem, estaria preparado para retornar ao mercado.

A questão da força de trabalho tem uma ressalva. Segundo o economista-chefe do Itaú Unibanco, Mário Mesquita, o constante adiamento de projetos de investimento por empresas em razão das incertezas político-econômicas pode influenciar o preparo dos trabalhadores. "Isso só não ocorre se a pessoa usar esse período sem trabalho para estudar, mas isso não é possível para a maioria das pessoas nessa condição", diz Mesquita. Dessa forma, a questão do treinamento de pessoal pode surgir como necessidade logo adiante.

Mesmo que o Brasil consiga recuperar o que perdeu na recessão, a expansão de longo prazo depende de outras mudanças, como as tendências protecionistas do País, diz o economista Marcos Lisboa, presidente do Insper. "É necessário que se defina uma agenda de produtividade que inclua a abertura da economia e a incorporação de tecnologias que combatam nossa baixa produtividade."

Do ponto de vista de produtividade, Lisboa argumenta que há várias alternativas que "gerariam renda em vez de desperdiçar recursos". Ele cita a reforma tributária, a simplificação do ambiente de negócios e a redução da insegurança jurídica como pontos prioritários. "Decisões atabalhoadas do Judiciário têm ocasionado retração especialmente no setor de crédito", diz o presidente do Insper.

Além disso, os incentivos e a relação de clientelismo entre parte das empresas e o governo federal contribuiu para criar um cenário de negócios pouco ambicioso. Silber diz que a maior parte do empresariado insiste em voltar a força produtiva para o mercado interno. Como pensar pequeno não leva à inovação, o economista diz que empresas fazem lobby por cotas nacionais para evitar que produtos estrangeiros abocanhem o mercado local.

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